POLÍTICA

Carta à filha que eu quero ter (Por Joaquim Neto)…

POR JOAQUIM NETO – Filha, talvez quando você ler estas palavras, eu já não esteja neste mundo. Ou quem sabe eu já esteja velho a ponto de não poder correr com você pelos campos, pelos bosques, nadar nos rios, pegar em seus braços e rodar, jogar bola ou mesmo ajudá-la a fazer o dever de casa.

Em primeiro lugar, queria explicar o porquê de escolher que você nascesse mulher. Sempre sonhei com uma filha, porque as meninas são muito mais interessantes, carinhosas, sensíveis, belas, inocentes e encantadoras, a verdadeira criação divina.

Venho escrevendo uma série de cartas para você. Preste atenção, você ainda não nasceu, mas quando você nascer, eu já terei reunidas várias cartinhas endereçadas a você, contando a aventura da humanidade, minha experiência de mundo, minha história, minhas angústias, meus sonhos, minhas utopias e minhas dores e revoltas diante das injustiças, de modo a prepará-la para enfrentar a vida fora da barriga de sua mãe, que eu ainda não a conheço, ou se conheço, ainda não a conquistei.

Hoje eu queria conversar sobre um amigo que tem me ajudado a enfrentar um terrível sofrimento que me atingiu de uns tempos pra cá.

O ano de 2016 foi demasiadamente estranho para nossa querida pátria e, em particular para mim. Foi um ano em que o Brasil descobriu a guerra fria, coisa de russos e estadunidenses do século passado. Aflorou-se um ódio que eu nunca testemunhara. Logo em um momento em que o Brasil não devia mais aos agiotas internacionais, que finalmente iríamos nos livrar do perverso modelo colonial e dependente das potências estrangeiras – especialmente dos Estados Unidos – e seguirmos a uma verdadeira soberania, com possibilidade de desenvolvimento e distribuição de renda.

Houve uma campanha impiedosa e virulenta dos meios de comunicação de massa, insuflando setores conservadores e egoístas a saírem às ruas. Tudo isso monitorado por parte dos altos escalões da república, pelo imperialismo americano e ainda por antipatriotas, que, de olhos arregalados nas nossas reservas de petróleo, se comportaram de maneira acintosamente parcial, como se a corrupção tivesse sido inventada por um partido. Os outros, entreguistas e defensores dos interesses da plutocracia, podiam arrebentar os cofres públicos ilesos. Assim, sem votos, uma matilha tomou de assalto o governo e imediatamente começou uma política de cortes de direitos dos mais pobres, entrega do patrimônio público para os abutres estrangeiros e proteção dos corruptos sócios do golpe.

Confesso que já havia lido algo sobre a banalização do mal e o fascismo, mas nunca imaginei que iria ver isso de perto. Observando atordoado e impotente, queria lutar, mas estava fora de meu alcance. Fui às ruas, esbravejei, não adiantou. Só quero que você não sinta vergonha de seu pai, pois ele não se resignou diante do arbítrio e da injustiça. Espero que você se orgulhe de mim por ter resistido para que sua geração recebesse um Brasil mais humano, justo e tolerante.

Quando vi que não tinha jeito, nada eu podia fazer, resolvi sair do Brasil para melhorar meu estado espírito tão decepcionado, tão arrasado, tão taciturno. Mas tive que voltar imediatamente. Outra dor me atingira em cheio. Recebi a amarga notícia de que sua avó havia falecido. Chorei e lamentei em seu leito de morte que ela não pode conhecer você, me senti culpado por não ter antecipado seu nascimento. Desde então, venho colecionando dores, moro sozinho e a maioria de meus amigos já morreram há muito tempo, mas são sábios e me ajudam a superar o sofrimento e desejar a vida. Heráclito, o pai da dialética, Epicuro, Epicteto, um escravo filósofo, Montaigne, Maquiavel, Dante, Shakespeare, Rousseau, Espinosa, Marx, Tolstoi, Gandhi, Sartre e muitos outros. Todas as noites eu converso com eles e peço conselhos.

Hoje, como eu disse, vou lhe apresentar um desses amigos, o nome dele é Epicuro. Ele nasceu em Samos no ano de 341 a.C. e viveu numa época também de crises de valores e de desencantamento com a política. A Grécia foi invadida por Alexandre, pondo fim à grande civilização, causando um vazio espiritual que ele pretende preencher com uma nova maneira de encarar o mundo.

Diante do cenário devastador, Epicuro recolhe-se, cria uma escola chamada O Jardim e propõe uma nova virtude, um conforto para tempos difíceis, que é o aperfeiçoamento do homem como indivíduo, fora do governo. Já que não existe mais a sua pátria, resta administrar a pátria interior, buscar a felicidade por si mesmo.

A felicidade não depende dos governantes, não depende do dono do planeta, não depende do dono do Brasil, só depende de você. A felicidade está dentro de nós e independe de como as coisas estejam fora de nós (isso me faz lembrar a passagem da Bíblia, Lucas 17, o Reino de Deus está dentro do coração do homem). Muitos pessoas procuram adequar o que está fora de nós e o que está dentro de nós, mas a lição é: se não tem jeito com o que está fora de nós, então deve ter jeito com o que está dentro de nós.

Assim, Epicuro define que a felicidade é ausência de dor e de perturbação, ataraxia (depois você pesquisa o que significa, aqui não vou usar termos técnicos ou científicos). Em outras palavras, felicidade é paz do espírito e para alcançar essa felicidade e essa paz o homem só precisa de si mesmo, não lhe servindo a política, a cidade, as instituições, a nobreza, as riquezas. Para ele, todos os homens são iguais, porque todos aspiram à paz do espírito, todos têm esse direito e todos podem alcançá-la, se quiserem. O Jardim abriu suas portas a todos, a ricos e pobres, a livres e escravos, a homens e mulheres, sendo sua resposta aos males do mundo e com isso Epicuro tornou-se o médico das almas.

Muitos não leram ou interpretaram mal o pensamento desse grande filósofo, acusando-o de alienado da luta política, mas é preciso compreender o momento em que ele viveu, o seu país fora destruído por forças estrangeiras, nada mais restava senão cuidar de si mesmo, buscar a felicidade dentro de si próprio, longe do poder. Nesse sentido, ele é muito atual. A crítica é tão injusta que pode ser facilmente afastada, só lembrando que o pensamento de Epicuro seduziu nada mais nada menos do que Karl Marx, um dos filósofos mais preocupados com a política, e que o tomou como base para a elaboração do seu materialismo histórico.

Essa forma de pensar não é o que hoje nós chamamos de autoajuda. É algo muito mais profundo, sério e reflexivo. Ele diz que não é difícil ser feliz. A felicidade é a justa e plena satisfação dos prazeres. Mas não é qualquer prazer que deve ser satisfeito. Ele dividiu os prazeres em: a) naturais e necessários; b) naturais e não necessários; e c) não naturais e não necessários. A sabedoria está justamente em satisfazer aqueles prazeres que são naturais e necessários, como por exemplo, comer e beber. Porém, uma comida requintada e cara é natural mas não é necessária. O luxo e a riqueza são prazeres nem naturais nem necessários. Um pouco de pão para matar a fome, um pouco de água para matar a sede, um pouco de palha para dormir e a amizade são fundamentais para a vida feliz. Isso me faz lembrar dos tempos em que saí da casa de meus pais para estudar. Havia dias que eu não tinha nem o pão, a água sequer era filtrada e muitas vezes dormia no chão. Nas madrugadas, depois de muito estudo de física, química e biologia, uma farinha seca com água da torneira me saciava. E a lição de Epicuro já me ajudava a não desistir dos estudos e ser feliz com o que eu tinha disponível. Dava aulas de matemática em troca de um prato de comida e era feliz, mesmo sabendo que a culpa vinha de forças opressoras que remontam às origens da formação de nosso país.

Então, Epicuro propõe que para ser feliz, devemos levar uma vida nem mergulhada na miséria nem cheia de luxos, mas dentro da justa medida, do equilíbrio sem carências nem excessos, porque, como ele diz, para quem não basta o pouco, nada basta. Não bastam os bens materiais, é preciso alimentar a alma. Se queres enriquecer, não aumente as riquezas, diminua os desejos. Esqueça as frases “eu vou ser feliz quando eu ganhar na loteria”, “eu vou ser feliz quando eu comprar o carro do ano”, “eu vou ser feliz no dia em que eu me aposentar”. Epicuro condenaria tudo isso, porque a felicidade é a satisfação do prazer, que, buscado corretamente, está à disposição de todos.

Em relação à dor, Epicuro nos ensina uma técnica para torná-la suportável, e com bastante experiência própria, tendo em vista que ele sentia fortes dores devido a um cálculo renal. Ele ensina que nós temos um equipamento de imagens na mente. Se, no momento da dor, lançarmos mão desse equipamento das boas imagens, das boas lembranças, se pensarmos em algum acontecimento ou pessoa que nos fez feliz, a dor pode ser suportada. E se a dor não puder ser suportada nem com essa artimanha, aí não é mais dor, é a morte.

E quanto à morte, Epicuro diz que ela nada é para nós. A morte é um mal só para quem nutre falsas opiniões sobre ela. Nós somos um composto de alma e de corpo, a morte não é mais que a dissolução desses compostos. E, nessa dissolução, os átomos dissipam-se por toda parte, a consciência e a sensibilidade cessam totalmente, e assim, sobram apenas restos que se dissolvem, ou seja, nada, porque a absoluta perfeição do prazer não necessita do eterno. O mais terrível dos males, portanto, a morte, não é nada para nós, uma vez que, quando somos, a morte não é, e quando ela chega nós não somos mais. O encontro é impossível. É tanto que Epicuro morreu numa banheira com água quente, degustando uma taça de vinho e brindando a vida. Até pra morrer a gente precisa ser feliz.

Depois dessa conversa com Epicuro, melhorei bastante e aprendi a encarar os sofrimentos, as dores, as perdas e o desencanto com o mundo da política. Sugiro que você se aprofunde no pensamento desse gigante da sabedoria universal porque tudo que eu falei aqui foi apenas um resumo. Leia a Carta a Meneceu, um dos poucos livros dele que se salvaram. E lembre-se, o verdadeiro bem é a vida, e para manter a vida basta pouco, e esse pouco está à disposição de todos. Tudo o mais é vaidade. Preocupe-se mais com o ser e menos com o ter. Em tempos de irracionalidade, egoísmo e intolerância, a felicidade não está nas coisas exteriores, mas na condução saudável e ética da nossa própria vida.

Com amor,

Papai.

Ano de 2017, janeiro, 21.

Texto publicado na íntegra…

 

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